A importância da preparação física na visão do profissional Orlando Folhes

Quando vemos um atleta de Mixed Martial Arts (MMA) no auge da sua carreira, talvez não percebemos como há uma preparação por detrás daquele que irá para octógono. A pergunta mais famosa dos últimos tempos para os lutadores é: Are You Ready? Essa interrogação é cheia de significado. Ali está contido um trabalho, uma preparação de meses tanto física quanto psicológica.

Uma equipe multidisciplinar é a chave do sucesso para um lutador. O carioca Orlando Folhes, 35, faz parte desse seleto hall de profissionais de educação física que se dedica ao mundo do MMA. Professor da UNESA (Universidade Estácio de Sá), o morador do Bairro de Botafogo tem no currículo Especialização em Fisiologia do Exercício pela FAMATH (Faculdades Integradas Maria Theresa) e Metodologia Científica do Treinamento Desportivo pela MATAZAS (Universidade Matanzas Camilo Cienfuegos), em Cuba, é Mestre em Ciências do Desporto pela Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, sediada em Vila Real-Portugal e logo será doutor em Treinamento  Desporto, em Portugal.

Entre os lutadores que buscam seu Know-how temos nomes importantes e de peso no cenário nacional e internacional como José Aldo, campeão do UFC, peso pena, ex-campeão dos penas do WEC, quatro vezes campeão brasileiro de jiu-jitsu, campeão mundial de jiu-jitsu; Júnior Cigano, Campeão de jiu-jitsu estadual na Bahia, campeão de Submission no estado da Bahia, ex-campeão peso pesado do UFC; Léo Santos, 7X Campeão Mundial de jiu-jitsu, vencedor do TUF Brasil 2 e lutador do UFC; Antônio Cara de Sapato, UFC, Campeão Mundial, Campeão Brasileiro, Campeão Pan Americano de Jiu-Jitsu e vencedor da categoria peso pesado do TUF Brasil 3; Ketlen Vieira, Campeã brasileira de wrestling em 2009, medalha de bronze em nacionais brasileiros em 2010, medalha de bronze nas Olimpíadas da faculdade em 2014, campeã do Mr. Cage Championships no MMA em 135 libras; Dudu Dantas, Eduardo “Dudu” Dantas é Bi-campeão dos pesos-galo do Bellator, um dos principais eventos de MMA do mundo. É faixa preta de jiu-jistu e faz parte das equipes Nova União, de André Pederneiras e Nobre Arte (Boxe), do Cláudio Coelho; John Teixeira, também do UFC e Hacran Dias, UFC e Campeão sul americano do Shotoo.

Em algumas perguntas, Orlando Folhes contou um pouco sobre seu trabalho e trajetória de sucesso dentro do Mixed Martial Arts.

BN- Diga-nos sobre o começo da sua carreira. Como iniciou no mundo da luta?

Comecei a praticar judô com 5 anos na AABB-Lagoa, onde sempre participei de competições nacionais e obtive títulos estaduais e nacionais. Com 17 anos ingressei na faculdade de Educação Física interrompendo a vida de atleta. Durante a faculdade conheci a luta olímpica (wrestling) onde comecei a praticar e retornei, no final da faculdade, para rotina competitiva onde ingressei para seleção brasileira de luta greco-romana conquistando títulos nacionais e internacionais.

BN- A partir de que ponto você começou a desenvolver seu trabalho de preparação física com o atleta?

Ainda enquanto atleta e já professor de Educação Física, outros atletas me procuravam para que eu realizasse a preparação física para os torneios. Comecei com atletas de judô, depois fui procurado por atletas de jiu-jitsu onde obtive meus primeiros títulos mundiais como preparador físico, em seguida foram os atletas de luta olímpica, com medalhas em jogos sul e pan americanos, além de participações em jogos olímpicos. Por fim, atletas de MMA me procuraram para que realizasse a preparação física deles para suas lutas, entre eles, atletas como José Aldo, Léo Santos, Antônio Cara de Sapato, Ketlen Vieira, Hacran Dias, Júnior Cigano, Dudu Dantas, John Teixeira entre outros.

No desenvolvimento desse trabalho, pessoas não atletas também me procuravam para que pudesse desenvolver trabalho físico direcionado, daí então, fundei o CDPD – Centro de Desenvolvimento e Pesquisa em Desporto. Onde, além de capacitar profissionais na metodologia, recebo público atleta e não atleta em estúdios de preparação física personalizada.

BN- O atleta de alto nível tem uma exigência muito grande no que tange o aspecto psicológico. Isso atrapalha o desenvolvimento físico, conte-nos um pouco sobre essa relevância?

O próprio treinamento já é um processo seletivo que separa o atleta do não-atleta, dividindo ainda os atletas profissionais dos amadores, os de elite dos medianos e assim por diante. Digo isso, pois o treino e a rotina de um atleta profissional são árduos, disciplinados, cheios de restrições nutricionais, sociais, físicas etc.

O atleta inevitavelmente deve estar acostumado com a dor, com frustrações e situações difíceis. A maneira como cada atleta lida com esses sentimentos influencia na motivação para treinar, comer, se relacionar etc, consequentemente, influencia a parte física. Por isso, trabalhar com equipe multidisciplinar, nesse caso específico, com psicólogo esportivo é um grande diferencial.

BN- Existe um período mínimo para uma boa preparação?

No caso das lutas, os atletas precisam atingir um pico de rendimento, ou seja, precisam estar no melhor de sua condição física, motora, técnica, psíquica etc em uma data específica. Logo, a periodização do treino, ou seja, a forma como será planejado o treinamento deve respeitar o calendário competitivo e a partir disso é possível traçar uma expectativa de tempo para alcançar esse pico.

No caso do MMA e com os atletas com quem trabalho, definimos um máximo de 4 picos no ano. Assim, temos 3 meses (12 semanas) para programação das tarefas físicas até a data da luta.

BN- Como saber quando um atleta chega ao momento certo da preparação?

Durante o camp de treino, coleto as respostas fisiológicas dos atletas, realizamos exames bioquímicos em conjunto com médico esportivo e avalio o desempenho através de scout nos treinos.

De acordo com a classificação atlética do atleta, temos um mínimo de respostas físicas, técnicas, tácticas, fisiológicas, motoras e bioquímicas para atingir, podendo assim ter segurança para afirmar que estamos competitivamente prontos. Esses dados nos permitem confrontar os resultados com a subjetividade dos treinadores e a própria percepção pessoal dos atletas.

BN- Os suplementos alimentares ajudam também na preparação? Como trabalhar essa relação?

O esporte de alto rendimento hoje é definido nos detalhes. O tempo de recuperação é um desses importantes detalhes. Logo, utilizar suplementação que possa acelerar essa recuperação é um grande diferencial no processo de treinamento. Contudo, essa avaliação e prescrição é feita por profissionais que compõe uma equipe.

BN-A isometria é algo importante. Em que momento da vida profissional esse fator relevante vai se sobrepondo a outros?

A isometria é a capacidade de um músculo ou grupamento musculares produzirem tensão e calor sem que haja movimento. Em estudo realizado com os atletas que acompanho, confrontei a estratégia de luta (dividia em lutar em pé, lutar para derrubar e lutar no solo) com a percepção subjetiva de esforço deles. Após simulações de lutas, eu apresentava uma figura com corpo humano dividido e pedia para os atletas apontarem onde se sentiam mais fadigados. Os atletas oriundos de lutas de solo, como jiu-jitsu por exemplo, apontaram os antebraços, bíceps e deltoides como musculaturas com maior sensação de fadiga. Isso pode ser explicado por conta do tipo de estratégia adotada por eles, onde a troca de pegada e a progressão das posições com produção elevada de força isométrica eram executadas.

Já os atletas oriundos da luta em pé, como boxe e muay thai por exemplo, cuja estratégia foi efetuar luta de percussão, apontaram as panturrilhas e o trapézio como musculatura mais fadigada. Podendo ser explicado pela necessidade de manterem a posição de luta com guarda alta e necessidade de ficarem em constante deslocamento nas pontas dos pés. Logo, no caso do MMA, a isometria é importante, contudo, o percentual de importância varia de acordo com a estratégia de luta definida pelos atletas.

BN- A Educação Física junto à Fisioterapia deu um salto muito importante para o rendimento do lutador. Quais as novidades do mercado sobre o aspecto do treinamento?

Todo nós, seres humanos, levamos nossas vidas sobre uma linha que nos orienta, podendo ser a linha da saúde, da performance ou do sedentarismo.

Hoje os recursos tecnológicos, aliados à forma como os profissionais enxergam o ser humano, antes de enxergarem o atleta como máquina, está permitindo que a linha da saúde possa se aproximar da linha da performance. Logo, a preocupação em melhores padrões motores, técnicas de avaliação, exercícios de correção e estabilização que façam o treinador visualizar musculaturas inibidas, ativadas, desvios, desarranjos etc permite, além maximizar a performance atlética, prolongar a carreira e o tempo competitivo do atleta.

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